África tem 60% das terras aráveis não cultivadas do mundo. Tem a população mais jovem de qualquer continente com uma média de idade de 19 anos. Tem um mercado consumidor que cresce mais rápido do que qualquer outra região do planeta. E tem um défice alimentar estrutural que importa dezenas de milhares de milhões de dólares por ano em alimentos que poderia produzir internamente.
Estas quatro realidades juntas criam uma das maiores oportunidades de negócio do século XXI e a maioria das pessoas, dentro e fora do continente, ainda não percebeu o que está a acontecer.
Este artigo não é sobre o agronegócio que África podia ter. É sobre o agronegócio que está a acontecer agora, as oportunidades concretas que existem hoje, e o que falta para que criadores, empreendedores e investidores moçambicanos e africanos possam aproveitá-las antes que o mundo exterior chegue primeiro.
O Tamanho Real da Oportunidade
Para perceber a escala do que está em jogo, é preciso olhar para alguns números que raramente aparecem juntos na mesma conversa.
África importa mais de 80 mil milhões de dólares em alimentos por ano tudo, desde trigo e arroz até óleo de palma, leite em pó e frango congelado. Grande parte desses alimentos são produtos que o continente tem todas as condições para produzir internamente: clima, terra, água e mão-de-obra. O que falta, na maioria dos casos, não é capacidade natural é organização, capital e conhecimento técnico.
Ao mesmo tempo, a população africana deverá duplicar até 2050, passando de 1,4 mil milhões para mais de 2,5 mil milhões de pessoas. Cada nova pessoa que nasce em África é um novo consumidor de alimentos. E à medida que as classes médias urbanas africanas crescem e estão a crescer a uma velocidade impressionante o consumo per capita de proteína animal, laticínios e alimentos processados aumenta de forma consistente.
A conta é simples: mais pessoas, a comer mais e melhor, num continente que ainda importa a maior parte do que consome. O espaço para quem queira produzir, transformar e vender alimentos em África é enorme e vai crescer durante décadas.
Oportunidade 1 Produção de Proteína Animal para o Mercado Urbano
As cidades africanas estão a crescer a uma velocidade sem precedentes históricos. A produção avícola em Moçambique tem crescido de forma consistente, com o consumo de carne de frango a aumentar à medida que a população urbana cresce e os rendimentos melhoram. (Novoshorizontes) O mesmo padrão repete-se em praticamente todos os países subsaarianos: quanto mais urbana e mais rica se torna a população, mais proteína animal consome.
Em Moçambique, Angola, Tanzânia, Quénia, Gana e na maioria dos países africanos, o consumo de frango, ovos, carne de porco e produtos lácteos está a crescer a taxas de dois dígitos anuais. Este crescimento está a acontecer mais rápido do que a produção interna consegue acompanhar o que significa que o espaço para novos produtores é real e imediato.
Onde está a oportunidade específica:
A maioria da produção avícola e suinícola em África concentra-se nas capitais e nas suas zonas periurbanas. As cidades do interior como Tete, Lichinga, Cuamba ou Quelimane em Moçambique; como Huambo e Malanje em Angola; como Mwanza na Tanzânia têm uma procura crescente de proteína animal que é satisfeita a custo elevado por produtos transportados de longe. Um criador que se instale próximo destas cidades do interior tem uma vantagem de custo logístico enorme face à concorrência das capitais.
Oportunidade 2 Transformação e Valor Acrescentado
Esta é provavelmente a maior oportunidade subaproveitada em todo o agronegócio africano e também a que exige mais visão estratégica.
Africa exporta matérias-primas e importa produtos transformados. Exporta cacau e importa chocolate. Exporta café verde e importa café torrado e embalado. Exporta milho e importa farinha de milho embalada. Exporta amendoim e importa manteiga de amendoim. Em cada um destes casos, o valor acrescentado pela transformação o processamento, a embalagem, a marca fica fora do continente.
O mesmo acontece na cadeia de proteína animal: em muitos países africanos, o frango é vendido inteiro, vivo ou abatido, sem qualquer transformação. As oportunidades de processamento frango desossado, peito de frango embalado, enchidos, patés, ovos embalados por dúzia com marca própria, leite pasteurizado, queijo artesanal são enormes e estão amplamente por explorar.
Exemplos concretos para Moçambique:
Um criador de frangos que investe num equipamento simples de abate e câmara de frio consegue vender frango limpo e embalado a supermercados, hotéis e restaurantes de Maputo a preços 40 a 60% superiores ao frango vivo. A transformação é mínima o valor acrescentado é enorme.
Um produtor de ovos que embala os seus ovos por dúzia, com etiqueta própria, data de embalagem e informação nutricional, diferencia-se imediatamente da concorrência que vende ovos a granel. O custo da embalagem é marginal; o impacto na percepção de qualidade e no preço de venda é significativo.
Um produtor de leite fresco que instala um pasteurizador simples e vende leite pasteurizado em sacos ou garrafas com marca própria acede a um mercado supermercados, hotéis, padarias que está disposto a pagar o dobro do preço do leite cru.
Oportunidade 3 Insumos e Serviços para o Sector Primário
Para cada criador ou agricultor que produz alimentos, existe um ecossistema de fornecedores, prestadores de serviços e distribuidores que ganham dinheiro sem serem eles próprios os produtores. Esta cadeia de suporte ao sector primário é uma das oportunidades mais estáveis e menos reconhecidas do agronegócio africano.
O que o sector primário africano precisa e não encontra com facilidade:
Assistência técnica veterinária e agronómica nas zonas rurais. Em Moçambique, a densidade de veterinários nas províncias do interior é extremamente baixa. Um técnico veterinário que ofereça serviços de visita às granjas, diagnóstico, vacinação e consultoria numa região do interior pode construir um negócio de serviços altamente rentável porque o mercado praticamente não tem concorrência.
Transporte e logística de frio. A ausência de cadeia de frio é um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento do agronegócio africano. Alimentos que se estragam antes de chegar ao consumidor representam perdas que chegam a 30 a 40% da produção em alguns países. Quem investe em transporte refrigerado, armazéns de frio ou simples câmaras frigoríficas em zonas estratégicas tem um serviço que toda a gente precisa e poucos oferecem.
Produção e distribuição de insumos pintos de um dia, sementes certificadas, medicamentos veterinários, rações nas zonas rurais e nas cidades do interior onde o acesso ainda é difícil e irregular.
Formação e conhecimento técnico. A avicultura, a suinocultura e a bovinocultura comerciais exigem conhecimento técnico que a maioria dos criadores africanos ainda não tem. Quem consegue empacotar esse conhecimento em cursos, manuais, consultoria, plataformas digitais tem um mercado enorme e em crescimento.
Oportunidade 4 A Revolução Digital no Agronegócio Africano
O telemóvel chegou à África antes do banco, antes do supermercado e antes da estrada asfaltada. E isso criou algo extraordinário: um continente de 1,4 mil milhões de pessoas com acesso à informação digital mas com muito poucos recursos informativos de qualidade em línguas locais e contextualizados para a realidade africana.
O agronegócio digital em África está ainda na sua infância e as oportunidades são enormes:
Plataformas de informação técnica em línguas locais. A maioria dos recursos técnicos sobre produção animal, nutrição, sanidade e gestão de granjas está em inglês, francês ou português de Portugal/Brasil e raramente contextualizado para as realidades africanas de clima, mercado e disponibilidade de insumos. Quem cria conteúdo técnico de qualidade em português africano, suaíli, amárico ou hauçá para agricultores e criadores tem um mercado enorme praticamente sem concorrência. É exactamente o que o Infopecuária está a construir para Moçambique e para a África lusófona.
Comércio electrónico agrícola. Plataformas que ligam produtores directamente a compradores eliminando os intermediários que capturam a maior parte da margem estão a emergir em vários países africanos mas ainda têm cobertura muito limitada. Em Moçambique, onde um criador em Manica tem dificuldade em encontrar compradores fora da sua região, uma plataforma digital de ligação produtor-comprador teria impacto imediato.
Pagamentos móveis para o agronegócio. O M-Pesa no Quénia e na Tanzânia, o M-Pesa em Moçambique e o Multicaixa em Angola já provaram que os pagamentos móveis funcionam em África. O agronegócio com as suas necessidades de pagamentos antecipados de insumos, crédito de curto prazo e pagamentos entre produtores e compradores é um campo fértil para soluções financeiras digitais adaptadas ao sector.
Oportunidade 5 Produtos Orgânicos e de Nicho para o Mercado Premium
Em todas as grandes cidades africanas Maputo, Luanda, Nairóbi, Lagos, Acra, Dar es Salaam existe uma classe média e alta crescente que está a mudar os seus hábitos alimentares. Querem produtos mais saudáveis, mais naturais, com origem conhecida. E estão dispostas a pagar mais por isso.
O mercado de produtos orgânicos, produtos artesanais e produtos com história “frango criado no campo”, “mel silvestre da Zambézia”, “manteiga de amendoim artesanal de Gaza”, “ovos de galinhas de quintal de Inhambane” é ainda mínimo em África mas está a crescer. E ao contrário do mercado de massa, onde a concorrência dos produtos industriais importados é feroz, o mercado premium tem muito menos concorrência e margens muito mais elevadas.
Um criador moçambicano que consegue certificar e comunicar que o seu produto é natural, local e produzido de forma sustentável e que vende directamente a restaurantes de qualidade, hotéis de categoria, supermercados premium ou consumidores individuais consegue preços que tornam o negócio altamente rentável mesmo com volumes de produção relativamente pequenos.
Os Obstáculos Reais Porque Estas Oportunidades Ainda Estão Disponíveis
Se as oportunidades são tão evidentes, porque é que não estão todas já aproveitadas? A resposta honesta é que existem obstáculos reais que a maioria dos empreendedores africanos enfrenta e ignorá-los seria desonesto.
Acesso ao financiamento. O crédito agrícola em África é escasso, caro e burocrático. As taxas de juro nos bancos comerciais moçambicanos são elevadas para a maioria dos criadores de pequena e média escala. Os programas de microcrédito existem mas têm limites e condições que nem sempre se adequam às necessidades do agronegócio.
Infraestrutura logística. Estradas em mau estado, ausência de cadeia de frio, electricidade irregular e internet lenta nas zonas rurais aumentam os custos operacionais e limitam o alcance geográfico dos negócios agropecuários.
Acesso a mercados formais. Vender a supermercados, hotéis e exportar exige certificações, embalagens, rastreabilidade e cumprimento de normas que a maioria dos pequenos produtores ainda não consegue satisfazer sem apoio técnico e financeiro.
Capital humano técnico. A falta de técnicos veterinários, zootecnistas, gestores de agronegócio e especialistas em nutrição animal nas zonas rurais é um constrangimento real que limita a adopção de melhores práticas.
Nenhum destes obstáculos é intransponível mas todos exigem estratégia, paciência e, muitas vezes, parceiros certos.
O Que Está a Mudar e Porque Agora É o Momento
Apesar dos obstáculos, existem forças estruturais que estão a mudar o panorama do agronegócio africano de forma acelerada:
A Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), que entrou em vigor em 2021, está progressivamente a eliminar tarifas entre os 54 países membros da União Africana. Para o agronegócio, isto significa que um produtor moçambicano pode em breve exportar para a Tanzânia, o Zimbabué, a Zâmbia e outros mercados regionais com muito menos barreiras do que existiam anteriormente.
O investimento estrangeiro em agronegócio africano está a crescer. Empresas de todo o mundo da China ao Brasil, da Índia à Europa estão a investir em África precisamente porque perceberam o potencial que descrevemos neste artigo. O risco para os africanos é que estas oportunidades sejam apropriadas por capital externo enquanto os empreendedores locais continuam à espera do momento certo.
A penetração digital e o acesso à informação estão a democratizar o conhecimento técnico. Um criador em Inhambane pode hoje aprender sobre nutrição animal, gestão de granjas e mercados internacionais com o mesmo telemóvel que usa para receber o pagamento dos frangos. Esta democratização do conhecimento é um dos maiores motores de mudança no agronegócio africano.
O Papel de Moçambique Nesta Equação
Moçambique ocupa uma posição geográfica e natural extraordinária neste contexto. Com costa atlântica e índica, fronteiras com seis países, clima variado que permite produção agrícola em praticamente todo o território, e recursos hídricos abundantes, o país tem condições naturais para se tornar um dos principais fornecedores de alimentos da África Austral.
Moçambique tem vindo a desenvolver esforços para aumentar a produção nacional de alimentos e reduzir a dependência das importações, com a avicultura a ser identificada como um dos sectores com maior potencial de crescimento.
Os mercados vizinhos Zimbabué, Zâmbia, Malawi, Tanzânia e África do Sul representam uma oportunidade de exportação que ainda está quase inteiramente por explorar pelos produtores moçambicanos. A África do Sul, o maior mercado consumidor da região, importa alimentos que Moçambique tem todas as condições para produzir.
Por Onde Começar Mensagem para o Empreendedor Africano
Se és um jovem empreendedor moçambicano ou africano a ler este artigo, a pergunta que provavelmente tens é: por onde começo?
A resposta não é universal mas há princípios que funcionam independentemente do país, do sector ou da escala:
Começa pelo mercado, não pelo produto. Antes de criar um único frango ou plantar um único grão, identifica quem vai comprar, a que preço e com que regularidade. O maior erro dos empreendedores do agronegócio é produzir primeiro e tentar vender depois.
Domina um elo da cadeia antes de expandir. A cadeia de valor do agronegócio é longa produção, transformação, embalagem, distribuição, retalho. Tentar controlar tudo ao mesmo tempo sem capital e sem experiência é uma receita para o fracasso. Domina bem um elo produz bem, transforma bem, distribui bem e expande a partir daí.
Usa o conhecimento como vantagem competitiva. Em mercados onde a maioria dos concorrentes opera de forma empírica, quem tem conhecimento técnico sólido tem uma vantagem enorme. Investe na tua formação, lê, experimenta, regista os resultados.
Constrói redes e parcerias. O agronegócio africano é um sector onde as redes informais de confiança têm um valor enorme. Conhece outros criadores, forma associações, partilha informação, compra insumos em grupo para ter melhores preços.
Pensa regional desde o início. O mercado moçambicano é de 33 milhões de pessoas. O mercado da África Austral é de mais de 300 milhões. Quem constrói o negócio com visão regional desde o início tem um horizonte de crescimento muito maior do que quem pensa apenas no bairro ou na cidade.
Conclusão
As oportunidades no agronegócio africano são reais, são grandes e estão disponíveis agora. Não são promessas vagas de um futuro distante são realidades de mercado que existem hoje e que vão crescer nas próximas décadas, independentemente de quem as aproveite.
A questão é se serão aproveitadas por africanos por criadores, empreendedores e investidores moçambicanos, angolanos, quenianos, ganenses ou se o capital e o conhecimento externos chegarão primeiro e capturarão o valor que o continente tem todas as condições para gerar internamente.
A janela está aberta. O momento é agora. E a história vai recordar como a geração africana que viveu o início do século XXI respondeu a esta oportunidade com acção ou com espera.
Artigo publicado pelo Infopecuária O portal de pecuária e agronegócio de Moçambique e África lusófona.
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